Pelas grades da minha janela

Nos últimos meses, contemplar o horizonte através da minha janela com grades enferrujadas tem sido meu refúgio. Como um passarinho na gaiola, meu canto esconde o choro de quem daria tudo para estar lá fora. Tantos lugares para conhecer, tantas pessoas para esbarrar, tantos momentos para viver, tantas alegrias para compartilhar, mas tudo isso parece tão distante agora, que pensar em tudo aquilo que eu gostaria de fazer traz um pesar ao coração, uma agonia abrupta que me sufoca os sonhos e aniquila quase que por completo a esperança.

Penso muito sobre tudo aquilo que deixei para depois. Os atrasos causados pela minha própria letargia, os silêncios ensurdecedores de palavras que não foram ditas, as lacunas que jamais foram preenchidas, me causam um descontentamento com a realidade, um sentimento de revolta misturado com a saudade daquilo que ainda não vivi, de tudo que eu deixei partir.

Vejo o meu destino se esvaindo pelas minhas mãos, querendo me provar que não sou dona de mim mesma e não posso escolher os meus próprios trajetos. O que está fadado a acontecer, acontecerá no tempo certo.

Contudo, a ansiedade me cega. O confinamento já deixou em mim as marcas de suas mãos pesadas e ríspidas, e eu já não sei quais paliativos usar nas feridas que insistem em não cicatrizar. A incerteza do amanhã me atormenta.

Queria viver, sair por aí sem rumo e observar o amanhecer na estrada que me levará às respostas que eu tanto procuro. Mas, estou aqui. Enclausurada. Estupidamente isolada de tudo aquilo que um dia eu achei que me era necessário. O que é necessário, afinal? A liberdade. De ser quem se é, de ir para onde quiser. É dela que mais sinto falta.

No final desse lamento, só me resta recuperar os resquícios de esperança que ainda me restaram e acreditar (ou pelo menos tentar) que nada é eterno – nem mesmo os pesadelos. Vivemos em ciclos infindáveis de histórias repetidas e, portanto, previsíveis. O sol reaparece todos os dias pela manhã e um arco-íris pode ser visto após a tempestade. E, dessa mesma forma, o futuro nos reserva um período de trégua, em que encontraremos a força para voltar aos eixos e viver tudo aquilo que ainda nos é desconhecido.

Por enquanto, eu continuo aqui, observando o que restou do mundo através da minha janela de grades enferrujadas, sonhando com um universo de infinitas possibilidades, esperando acordar com a esperada notícia de que a liberdade voltou a cantar.

36 Comments

  1. Priscilla querida,

    Pairei certo tempo por este trecho, olhando para mim mesma através das grades da janela enferrujada:
    “O confinamento já deixou em mim as marcas de suas mãos pesadas e ríspidas, e eu já não sei quais paliativos usar nas feridas que insistem em não cicatrizar. A incerteza do amanhã me atormenta.”
    Ao longo dessa contemplação infinita, sinto que o meus paliativos, como os seus, são a escrita, a observação, os sonhos e a contemplação literária. Adorei seu texto, porque a crueza que, de certo modo, tem enegrecido nossos dias, existência e sonhos, também serve como um ponto de partida para “sair por aí sem rumo”, ainda que seja uma viagem metafísica, imaginária ou onírica.
    Estendo a mão para você para que nossas janelas se cruzem e possam apreciar as pequenas felicidades, afinal, “é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim” (Cecília Meireles).

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    1. Juliana, seu comentário me emocionou. Tocou no fundo da minha alma. Como é mágica a sensação de escrever e se sentir compreendida. De fato, nossos paliativos são a escrita, e sempre fora assim, mesmo antes da pandemia. Creio eu, que sempre será. Ainda bem que a temos!

      Obrigada pela delicadeza das suas palavras, desejo um ótimo ano novo, dentro das nossas possibilidades. Fique segura! ♥

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  2. Esse é o caminho mesmo, torço para que fique tudo bem com você e até me surpreendo porque para mim foi o justo contrário. Sempre vivi isolada e o isolamento me fez sair de mim mesma e até para o mundo que espero um dia poder explorar.
    Que o futuro a surpreenda positivamente! Um abraço e um final de ano de paz✨

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    1. Oi Lara, obrigada pelo comentário. Desejo que todos nós fiquemos bem depois de tudo, afinal.
      Sou bastante introspectiva, caseira, tímida. E isso sempre significou que eu preferia ficar no meu mundinho seguro e cômodo, exceto quando fazia minhas viagens de longa distância, pois apesar de amar minha casinha, também sempre adorei meter o pé na estrada, mas o que eu não havia percebido até o isolamento é a efemeridade do tempo, em todas as oportunidades que deixei passar, todos os momentos que deixei de viver, pois a vida acontece fora da nossa zona de conforto. E o quanto ainda temos para viver… esse é o meu pensamento constante. Eu espero, ansiosa, que tudo isso passe para que eu possa recuperar tudo aquilo que ainda não foi vivido, mas clama dentro de mim, implorando para ser materializado. Moral da história: percebi o quão ruim é ser um passarinho enjaulado e o quanto eu amo a liberdade e os horizontes que ela é capaz de nos proporcionar.

      Desejo o mesmo para você. Muita saúde, paz, amor e conquistas nesse ano que se inicia, que seja um ano de cura para todos nós. ♥

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    1. Muito obrigada! Me senti extremamente honrada com seu comentário! Fico feliz que minhas singelas palavras ultrapasse minha língua natal e seu conteúdo tenha chegado até você! Sinta-se sempre em casa nesse cantinho. E um feliz 2021! ♥

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  3. Pois é, chego aqui pela primeira vez e já vou lendo a minha realidade (acho que de quase todos nós) nesse que eu chamo de não-ano por tudo e nada. Mas, ao olhar pela minha janela nesse não-dia de sábado… observo pessoas se máscaras, a caminhar calçadas e me sinto num mundo outro. Fecho uma janela e abro outra… essa onde te leio, como se as linhas fossem minhas.

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    1. Poxa, Lunna, me sinto da mesma forma. É difícil entender o que se passa na mente das pessoas… Parece que nós, os enclausurados, estamos vivendo numa realidade paralela. Mas sigamos com nossas consciências tranquilas, pois estamos fazendo nossa parte, em respeito à nossa saúde mas, principalmente, em respeito ao próximo. Acredito que aqueles que quebram os protocolos de segurança necessitam urgentemente de uma aula sobre empatia.

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    1. Sabe, o confinamento não me assustou nem me fez sentir preso. 2019 para mim foi um ano muito difícil, diagnosticado com câncer, passei por cirurgia, outros procedimentos, exames, quimioterapia, mais exames….que fiquei confinado por absoluta falta de força física. somente no fim do ano comecei a viver com mais naturalidade, e 2020 deveria ser o ano da recuperação plena, em especial a física. Não está sendo possível. O bom é que até agora estou negativo para o câncer – daqui a 13 dias recomeço os exames – e sem recuperação física. No entanto, a janela me abriu para tantos universos, a literatura se reinventou em mim, a música assumiu o controle do dia, e me refiz por dentro. Sinto falta da rua, da convivência, do ir e vir? Dos amigos? Claro que sim, sempre. Mas, também aprendi com a doença a ter uma virtude: paciência. E outras se juntaram: resistência, não desistir, ânimo a cada amanhecer, um bom café com os pássaros, viver o silêncio da rua e depois acolher seus movimentos….há tanta vida dentro dos nossos olhos. Como os ciclos, uma nova estação nos espera. Sempre bom ler teus textos, há vida pulsante neles e isso é um alento. O meu abraço. ☮️🎶☕️💐

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      1. Há sempre o que aprender quando nos mostramos disponíveis a isso, mesmo nas maiores adversidades. Paciência e resistência são virtudes importantes para irmos sempre em frente. Que a caminhada seja tão longa quanto possa ser! Um abraço!

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  4. Hi Priscilla! Beautiful writing. We all on the same boat and assume lots of people feel lonely and frustrated. Be strong and patience, hopefully it will pass soon. Thanks a lot for visiting and following Suitcase Travel blog. Happy Holidays to you!

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  5. Infelizmente precisei encarar a rotina nesse período e, para mim que estou acostumado com a pista, foi ainda mais depressivo estar fora de casa do que em isolamento. O ambiente nas cidades está depressivo. Todos com medo. Todos apenas encarando o dia por obrigação. Pessoas na situação de miséria expostas a tudo isso. Comércios fechados. Etc.
    Minha torcida é que isso acabe antes de 2022. Espero que não seja sonhar demais.
    Belo blog. Beijos.

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