Os 245 anos de imortalidade de Jane Austen

De Jane Austen, sou uma eterna adoradora. Dos seus romances, me sinto cúmplice. É quase como se eu mergulhasse num universo paralelo e me afogasse nos ideais românticos dos tempos de outrora, que hoje parecem cada vez mais distantes da realidade.

Mas, falar de Jane não é apenas falar sobre os livros que inspiraram tantas outras obras posteriormente. É preciso falar de Jane em si, de seu próprio personagem, cuja personalidade exalava autenticidade. Subversiva, teve coragem de lutar pelos próprios objetivos, e se não fosse essa coragem em publicar seus escritos de forma anônima, jamais conheceríamos os clássicos da literatura inglesa que hoje se perpetuam em nosso imaginário tornando extremamente difícil a missão pragmática de não idealizar amores românticos.

Por mais de seis gerações, suas histórias permanecem sendo lidas, contadas, adaptadas e readaptadas. Seus personagens, construídos e desenvolvidos de forma tão realística, revelam a natureza humana tal como é: cheia de nuances, defeitos e sentimentos.

Ouso dizer que, após tantas madrugadas em claro suspirando por suas criações, Jane se tornou muito mais que minha autora favorita, se tornou, afinal, parte de mim. Eu, que sempre fui tão reservada, encontrei o refúgio da minha timidez nos universos criados por ela, e ali fiz morada. Seus personagens foram minha única (e melhor) companhia durante um bom tempo. E muito do que eu sei hoje como pessoa, aprendi através dos dilemas narrados nos enredos elaborados pela mente brilhante e fantástica de uma mulher que ousou confrontar, com classe e sutileza, a burguesia e o patriarcado, desafiando os valores sociais de sua época.

É perceptível que eu sou suspeita, mas, falar de Jane é falar sobre a necessidade de saber quem se é, o que se quer e ter coragem para correr atrás dos sonhos e fazer aquilo que se ama. Austen nunca teve o merecido reconhecimento por suas obras. Em vida, muito provavelmente, jamais imaginara que os seus livros, publicados em anonimato, virariam clássicos, e atravessariam séculos. Jamais imaginara que sua memória se faria, portanto, imortal.

É esse o ponto. Jane Austen é imortal, pois vive no imaginário de cada jovem que abre uma de suas obras despretensiosamente e se depara com um mundo encantador de personagens e situações tão distantes mas ao mesmo tempo tão próximos do que consideramos atual e encontra um retiro para suas mentes cansadas da inconstância e liquidez das relações de uma modernidade que, apesar de seus avanços, falhou na construção de uma sociedade mais igualitária e preserva a mesma estrutura hipócrita e superficial que já estava em perfeito vigor há mais de dois séculos.

Os 245 anos do nascimento de Jane Austen me fazem refletir sobre uma infinidade de assuntos e emoções enclausuradas no âmago do meu ser, mas, principalmente, me fazem perceber como, mesmo com todas as diferenças geracionais e contextos históricos distintos, os embaraços e complexidades inerentes ao indivíduo por sua essência, continuam os mesmos. Somos o resultado de milhares de anos de evolução, mas, em síntese, continuamos iguais.

15 Comments

  1. Priscilla, parabéns por esse post e por outros que agora tive a oportunidade de ler. Facilmente percebemos a sua elevada sensibilidade, além do que chama a atenção a sua escrita de elogiável qualidade. Seremos seguidores recíprocos, por certo! Abraço

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  2. I read Pride and Prejudice, by chance, years before she was popularized the World over by the movie industry, I was attracted by the title, not having idea what it was all about.
    Then a few years later saw this series in TV. 🙂

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